EMPREENDER NÃO É PARA TODO MUNDO

De acordo com a pesquisa Empreendedorismo no Brasil, realizada pela GEM (Global Entrepreneurship Monitor) com apoio do Sebrae e divulgada no primeiro semestre deste ano, há no Brasil quase 52 milhões de empreendedores.

Mas quase metade das micro e pequenas empresas brasileiras morre antes de completar dois anos, segundo o estudo Sobrevivência das Empresas no Brasil, divulgado também pelo Sebrae no final de 2016.

Dados como esses são assustadores, porém, refletem apenas uma realidade que enfretamos: empreender não é para todo!

Inúmeros são os motivos pelos quais isso ocorre, e muitos são corrigíveis com preparo e conhecimento. Entenda como é este processo:



O que leva as pessoas a empreender, no Brasil?

Aqui, a maioria empreende por necessidade, e não por oportunidade ou vocação. Muitas vezes, o que motiva é a perda repentina ou o medo de perder o emprego, o surgimento de uma possível grande ideia ou mesmo cursos motivacionais de empreendedorismo, que geram muita empolgação.

Outros pedem demissão e investem em franquias completamente fora da sua área de atuação, só porque determinado segmento está em alta. A chance desse tipo de investimento dar errado é muito grande.

É preciso conhecer o negócio, o assunto, o mercado, os produtos, os clientes daquele ramo em que você vai atuar. Não dá para começar do zero, tem que ser algo que faça parte do seu universo, das coisas que você entende e domina.

Quais os maiores erros que as pessoas cometem ao empreender?

O primeiro é não entender ou não dar importância ao fluxo de caixa. É básico saber quanto entra e quanto sai do negócio, dia a dia, mês a mês e anualmente para não entrar no vermelho.

O segundo erro é abrir uma empresa com muitos sócios logo de cara, porque, quanto mais sócios, mais o negócio tem que dar lucro. Os sócios dividem o lucro, por isso eles têm que ter uma razão de existir, tem que ter um valor complementar, não podem ser pessoas da mesma área, senão não faz sentido.

Outro erro é querer começar grande, alugando salas ou escritórios caros. Tem que começar aos poucos, um passo de cada vez, de forma sustentável.

Quais os principais mitos do empreendedorismo?

O maior é que é fácil. Outro é que qualquer um pode ser empresário. Tem que ter vocação. Ter um negócio não é para todo mundo, porque a sua vida muda completamente.

Outro mito é que você vai ficar rico. A maioria dos negócios quebra, e quem não quebra não fica rico. Empreender é uma profissão como outra qualquer, leva tempo, tem que se preparar, estudar, passar por várias etapas.

E toda carreira ou atividade terá uma parte burocrática, chata e operacional que vai tomar 80% ou 90% da sua rotina. O dono do negócio gasta muito tempo com reuniões, contador, advogado, legislação, e-mails, notas fiscais, burocracia, viagens, documentação… uma porção de coisas que, muitas vezes, não têm nada a ver com a expertise do empresário.

Quando você trabalha numa grande empresa, por mais alto que seja seu cargo, você é apenas uma parte de uma corporação muito maior, e geralmente não enxerga o todo.

Quando vira empresário, você tem que pensar em absolutamente tudo, desde comprar material de escritório até fazer café, limpar banheiro e lidar com pequenos problemas do dia a dia.

Como uma pessoa sabe se tem vocação para ter um negócio próprio?

Basicamente, é um perfil de gastar pouco, ter consciência de controle financeiro e não dar o passo maior que a perna. Ousadia é importante, mas não pode ser muito arrojado – isso só funciona no cinema. O perfil ideal está mais para o conservador, o ousado demais geralmente quebra.

Empreender é entrar em um mar revolto, então tem que ter prudência e responsabilidade. A razão para empreender tem que ser vocacional e você tem que identificar oportunidades dentro da sua zona de conforto.

Se a motivação para empreender for ficar rico, não empreenda. Se for para ter mais tempo, não empreenda. Se for o seu “plano B”, não empreenda. Se for para não ter mais chefe, não empreenda.

Em quais casos é melhor desistir?

O fluxo de caixa dá uma boa indicação disso. Projete quanto você vai gastar e quanto vai receber, e considere que os gastos sempre serão maiores que o previsto e que os recebimentos sempre serão menores, por causa de atrasos e inadimplência.

E surgem custos imprevisíveis, como equipamentos que quebram, contas adicionais, multas. Por isso, é importante calcular quanto você quer tirar de pró-labore do seu negócio. Se você quer embolsar 5 mil reais por mês, vai ter que faturar mais que o dobro disso. Caso contrário, é melhor repensar.

O que você diria para quem está pensando em empreender?

Prepare-se muito. Invista na sua formação, faça cursos de fluxo de caixa, gestão de pessoas, vendas, marketing, administração, entenda as leis que regem o seu segmento, conheça os tributos e a burocracia envolvida. Faça algo que você já domina, venda algo que você conhece para um público que você conhece.

Tenha em mente que você precisará ter dinheiro para criar a empresa, manter a empresa funcionando e se manter durante todo o tempo em que a empresa não der lucro, o que pode demorar meses ou anos.

Por isso, comece aos poucos, teste o seu produto ou serviço para ver se há mercado, venda para os seus amigos, peça a opinião de pessoas próximas e, se tiver dúvida, não arrisque. Empreender é um passo muito importante e às vezes envolve todas as economias de uma vida inteira de trabalho, por isso é preciso todo esse cuidado.

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