LIÇÕES DE ‘ARREMESSO FINAL’ E DE MICHAEL JORDAN SOBRE EMPREENDEDORISMO E LIDERANÇA

Em época de finais da National Basketball Association (NBA), é impossível não se perguntar se algum jogador, algum dia, chegará ao nível de Michael Jordan. Houve, é claro, Kobe Bryant, morto precocemente no início de 2020, e lendas como Bill Russell, Larry Bird e Magic Johnson. Atualmente, há LeBron James. Mas a mística em torno de Jordan, porém, parece ser mais forte. Foi ele o principal nome do dream team do Chicago Bulls, que venceu seis títulos na década de 1990, entre 1991 e 1993 e de 1996 a 1998.

Não é exagero dizer que a carreira de Michael Jordan é daquelas capazes de passar lições sobre a vida, inclusive, sobre liderança e empreendedorismo. Vamos a elas:


1. Ponto de virada

Michael Jordan diz que o jogo decisivo de sua carreira como atleta, que fez com que ele fosse de “Mike”, simplesmente, a “Michael Jordan”, foi a final de 1982 da Divisão I Masculina do campeonato da Associação Atlética Universitária Nacional dos Estados Unidos (NCAA), quando ele venceu com os Tar Heels, da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill.

Perto de todas as outras conquistas que ele teve enquanto esportista – 6 títulos da NBA e dois ouros olímpicos – essa pode até parecer pequena, mas foi crucial na carreira de Jordan. Nas startups também é comum existir um “ponto de virada”. O sucesso não surge da noite para o dia, mas há momentos que são fundamentais para determinar se uma empresa tem chances de ir para a frente ou não.

“É preciso formar a equipe ideal, gastar bastante tempo aprendendo sobre e melhorando o produto, aprender com o consumidor, compreender qual é o problema que seu produto ou serviço resolve de fato. A partir daí, você pode escalar, focar em resultados e crescer. No projeto que coordeno na universidade, a gente tenta desenvolver negócios exatamente com esse objetivo, negócios que tenham a capacidade de aprender com o seu mercado e com seus consumidores para, depois poder depois crescer de forma exponencial”, diz Fernando Domingues, coordenador do StartupLab e professor na graduação de Administração da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), em São Paulo.

A lição do episódio é que a vida é feita de momentos e que é importante estar preparado para os desafios que podem surgir. Uma grande história não precisa, necessariamente, de um início extraordinário. Uma jornada incrível pode, muito bem, ter um começo simples.


2. Uma equipe dos sonhos

Com Michael Jordan, os Bulls foram ergueram seis vezes o troféu da mais prestigiada liga de basquetebol do mundo. Apesar de ter a estrela como líder, a equipe não era chamada de dream team (time dos sonhos) à toa. Para se chegar ao sucesso, uma só andorinha não faz verão, e o trabalho em conjunto é fundamental para qualquer negócio. A lógica é mesma para uma empresa.

“Para formar um time dos sonhos, as pessoas devem estar engajadas no contexto do negócio. Ninguém brilha ou prospera sozinho, ninguém chega ao topo sozinho. O sucesso de um líder reflete uma equipe poderosa que trabalha de forma coletiva para fazer o negócio crescer, que consegue visualizar toda a floresta e não apenas algumas árvores. Isso se chama ‘visão sistêmica’. O pensamento no todo fica muito claro no dream team dos Chicago Bulls. Times dos sonhos têm pessoas engajadas, talentosas, humanas, competentes, colaborativas e com muita energia para fazer a ‘magia’ acontecer”, opina Alexandre Viegas da Silva, professora da Escola de Gestão e Negócios da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).

Jordan, inclusive, nunca teve a intenção de brilhar sozinho e buscava extrair o máximo de seus companheiros de time – nem sempre da forma mais agradável possível, é verdade. É assim que um líder por excelência age: reconhecendo os talentos de seus colegas/sócios/colaboradores e incentivando-os a dar seu melhor.

“O que falta para muitos chefes, muitas vezes, são treinamentos e formações que ajudam a liderança a desenvolver novas competências comportamentais para saber lidar e conduzir a equipe. A busca para o autoconhecimento é crucial para exercer uma brilhante liderança. Saber lidar com pessoas é uma das habilidades mais valiosas do mundo, afinal, são as pessoas que fazem o negócio acontecer”, complementa Silva.


3. Nem tudo são flores

Cestinha da NBA em 10 temporadas, Jordan não é considerado um dos maiores – não somente do basquete, mas do esporte em geral – à toa. Apesar da carreira brilhante, contudo, ele também sofreu reveses. Ainda nos anos 1980, sofreu uma fratura no pé que poderia ter acabado com a sua carreira. Em outra oportunidade, afirmou que estimava ter perdido mais de 9 mil lances e quase 300 jogos durante sua trajetória.

Falhar, portanto, faz parte de qualquer carreira. Além disso, é preciso aprender com o que deu errado. “No modelo de empreendedorismo atual, falhar, na verdade, torna-se o único jeito de acertar. Não devemos ter mais aquela ideia antiquada de que é preciso pensar muito bem e lançar uma coisa. Em vez disso, o que fazemos são vários micro-experimentos cujas chances de falha são muito maiores do que as de acerto, mas quando você acerta, o resultado que vem é grande. A ideia, então, é errar pequeno para acertar grande”, diz Domingues.

O professor da ESPM comenta que fazer o empreendedor compreender que a falha faz parte do processo é um dos maiores desafios enfrentados no programa de aceleração que ele coordena. Isso porque a educação ocidental tradicional costuma passar que falhar é “feio”, que se está dando tudo errado é melhor desistir. Nesse sentido, é preciso formar uma nova mentalidade de desapego ao que se testa, exatamente para que o empreendedor não tenha medo.


4. Nunca se dê por satisfeito

O dream team dos Bulls poderia muito bem ter ficado satisfeito com a conquista do primeiro título da NBA, em 1991. Já se tratava, afinal, de um grande feito que muitas equipes não conseguiram até hoje. Ocorre que eles não se deram por satisfeitos e ergueram a taça em outras cinco ocasiões. Da mesma forma, um empreendedor nunca deve se acomodar.

“Jamais um empreendedor deve se acomodar, se ele fizer isso, o mercado vai derrubá-lo e colocar um fim no negócio. O mercado é de quem faz, de quem inova, de quem tem coragem e ousadia para fazer acontecer. Especialmente hoje, quando as coisas mudam o tempo todo e a concorrência é gigantesca. O empreendedor deve se manter aberto para inovar, criar e transformar. Foi isso que o dream team dos Bulls fez”, afirma Silva.

Os especialistas afirmam que uma empresa estagnada é uma empresa que está morrendo. Inovar e renovar é se manter vivo e ter o crescimento contínuo como meta. Não à toa empresas que já são gigantescas, como Facebook, Amazon e Netflix seguem investindo em novos segmentos, novos produtos e funcionalidades. O foco, aqui, é crescer sempre.


5. A linha tênue entre ser bom e excelente

No esporte, assim como em várias outras áreas, a linha entre ser bom e ser excelente é tênue, mas faz toda a diferença. Em quadra, Jordan era incrível, e isso fazia toda a diferença. Como aplicar a mesma lógica a uma empresa?

“Essa talvez seja uma das maiores diferenças entre o esporte e o empreendedorismo. Enquanto no esporte o talento nato pode desequilibrar para melhor um time – e filmes como ‘O Homem que Mudou o Jogo’ (2011) mostram que a combinação racional de talentos faz a diferença -, em uma empresa a questão do talento natural das pessoas é substituído por um processo rápido de experimentação e testes. Hoje, as empresas excelentes estão em um processo constante de tentativa e erro, estão experimentando freneticamente até acertar. Isso porque estão dispostas a errar rápido”, pontua Fernando Domingues.

Para Alexandre Viegas da Silva, criar uma cultura organizacional de excelência também é importante para que uma empresa seja incrível, e não apenas boa. É preciso, assim, investir e acreditar nas pessoas.

“Uma companhia incrível é aquela onde as pessoas podem brilhar para entregar excelentes resultados. Na de enlouquecer os funcionários com cobranças ou metas impossíveis de atingir ou criar um clima negativo que prejudica o comportamento dos colaboradores. O ambiente de trabalho tem que ser saudável e desafiador na medida em que visa estimular os funcionários a explorarem melhor seus talentos”, opina o docente da Unisinos.


6. Não descuide da vida pessoal

Em 1993, Jordan disse ter perdido o interesse no basquete. Isso ocorreu muito por conta do assassinato de seu pai, na Carolina do Norte, por dois assaltantes adolescentes. Durante essa primeira aposentadoria do astro no basquete, ele chegou a se aventurar no beisebol, dizendo, inclusive, que se tratava de um sonho de seu falecido pai. No dia 18 de março de 1995, entretanto, ele voltou à NBA.

O episódio mostra que todo mundo precisa de um descanso às vezes. Nos negócios também não se deve descuidar da vida pessoal em prol da profissional. O ser humano, afinal de contas, é um só: é muito difícil separar o sujeito pessoal do sujeito profissional.

“Muitas vezes, o que é melhor para a empresa não é o melhor para o empreendedor, e o que é melhor para o empreendedor não é o melhor para empresa. Em determinado momento, por exemplo, a Apple demitiu o Steve Jobs. Aquilo foi a melhor coisa que aconteceu para ele, mas foi a pior coisa para a Apple, que basicamente perdeu a mão e quase foi vendida a preço de banana durante os anos 1990. Para o Steve Jobs foi a melhor coisa, porque o colocou numa posição de desafio que fez ele aprender, reinventar-se e ele fez da Apple o que ela é hoje”, lembra Domingues.

Não existe, porém, uma “receita de bolo” para encontrar esse equilíbrio. Segundo o professor da ESPM, isso ocorre na prática e é mais um dos desafios que o empreendedor precisa enfrentar. E se ele não chegar a essa medida, podem existir consequências danosas.


7. Seja competitivo, mas não arrogante

Hoje em dia, ser considerado competitivo é, muitas vezes, mal visto. Michael Jordan era competitivo e, por isso, testava seus limites. Esse, talvez, seja um dos pontos fundamentais para ele ser considerado um dos melhores da história no que fazia.

Quando se está empreendendo também é importante ter um espírito competitivo, mas sem deixar se levar pela arrogância. Além disso, não se deve nunca subestimar seus concorrentes.

“A competitividade faz parte da essência humana. Ser competitivo no ambiente de negócios é sinal de estar vivo e atuante. O problema é quando a competitividade escolhe o ‘lado sombrio da força’ e a pessoa passa a ver os concorrentes como adversários que precisam ser derrotados, não importa a que custo. Esse tipo de comportamento não gera engajamento, mas afasta. A arrogância cega a pessoa e isso é muito perigoso. Muitos empresários foram à falência por serem arrogantes em relação ao mercado. Uma situação nunca deve ser subestimada”, afirma Silva.

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